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segunda-feira, 29 de abril de 2013
‘Pérolas’ cômicas atribuídas a jornalistas - Redundância - Significados - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa
Veja lista de ‘pérolas’ cômicas atribuídas a jornalistas
SERÁ VERDADE?
Passeia pela internet uma nova lista de “asneiras jornalísticas”. Não tem paternidade (como sempre) e as frases são atribuídas à imprensa portuguesa, o que não é verdade. Eu já conhecia metade dos casos. São quase os mesmos de outra lista que já foi parcialmente apresentada aqui na Aula Extra. Naquela lista, os exemplos eram atribuídos a jornais cariocas.
A falta de paternidade acaba permitindo afirmações duvidosas e imprecisas. Eu nem acredito que todas as frases da lista tenham sido publicadas por algum jornal, mas não deixam de ser interessantes. No mínimo, valem pela criatividade dos seus autores.
Vejamos:
1) “Parece que ela foi morta pelo seu assassino.”
Ainda bem que não tem certeza!
2) “O acidente pode ter sido no tristemente célebre retângulo das Bermudas.”
Não sei se é uma dívida geométrica ou geográfica…
3) “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que haja vítimas.”
É que as vítimas não devem ser parentes de quem escreveu.
4) “O acidente provocou uma forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido.”
Era um “veículo” bem popular, muito querido na região. Será julgado pelo Departamento de Trânsito e, se condenado, ficará preso no depósito municipal.
5) “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.”
Só a princípio. No fim, vão descobrir que foi enchente.
6) “O aumento da inflação foi de 0% em novembro.”
Foi um aumento semelhante ao do salário mínimo.
7) “O presidente de honra é um septuagenário de 81 anos.”
Pior é aquele que pensa que sexagenário é o velhinho que ainda faz sexo.
8) “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça.”
E ficou de cabelo em pé.
9) “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem bastante obscuras.”
Porque as provas do crime já foram enterradas.
10) “A conferência sobre prisão de ventre foi seguida de um farto almoço.”
Logo após, houve uma grande corrida aos banheiros. Assim, foi possível pôr em prática as técnicas aprendidas na conferência.
11) “É uma bela peça musical, de onde parecia exalar toda a fria tristeza da estepe gelada. Foi executada com um calor magistral.”
Metade da orquestra ficou resfriada devido à violenta variação de temperatura.
12) “Apesar de a meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente.”
O sindicato dos meteorologistas ficou decepcionado com o tempo que não aderiu ao movimento de paralisação.
13) “Os quatro artistas formam um trio de talento.”
Deve ser o famoso quarteto “Trio los dos”, no qual cantava “solamente yo”.
Não sei distinguir entre o que foi realmente publicado e o que foi inventado. Importante é que diverte um pouco.
O próximo exemplo, porém, é verdadeiro. Um portal de notícias informou: “Bombeiro ajuda grávida a dar à luz por telefone”. É lógico que a ajuda é que foi por telefone, mas dar à luz por telefone poderia ser “algum avanço da ciência”…
O último caso ninguém me contou. Eu ouvi muito bem. Aconteceu há muito tempo numa transmissão de um jogo da seleção brasileira de futebol de areia, ou de “beach soccer” como preferia o comentarista que soltou a “pérola”: “O Neném começou a correr mais com a entrada do Júnior Negrão atrás”. E ele queria o quê?
CRÍTICA DO LEITOR
“Gostaria de chamar atenção para o correto sentido da palavra DESCRIMINAR, que na sua coluna foi explicada como “inocentar de um crime”. Inocentar é absolver. DESCRIMINAR significa “deixar de considerar crime um determinado ato que hoje é considerado como tal”. Portanto, correto não seria “o projeto queria descriminar o usuário de maconha”, e sim o projeto queria “descriminar o uso da maconha”.
O nosso leitor tem razão. Se prezamos o uso preciso das palavras, devemos “descriminar o uso, e não o usuário”.
Caso semelhante ocorre com o verbo CASSAR (=anular). Não se “cassa o prefeito”. O que se cassa é o mandato do prefeito.
DÚVIDA DO LEITOR E MINHA
ENFEZADO = CHEIO DE FEZES?
“Costuma-se usar a expressão ENFEZADO, quando queremos falar do nosso estado de aborrecimento. Não há nenhuma outra menção no Aurélio, mas fico me perguntando se a construção da palavra tem alguma relação com intestino cheio, prisão de ventre, que também nos dá o mesmo estado de ânimo, ou seja, nos deixa irritados, aborrecidos, ENFEZADOS. Alguma relação?”
Não é a primeira vez que ouço falar dessa história: ENFEZADA estaria a pessoa com prisão de ventre, ou seja, cheia de FEZES. Pode até ser verdade, mas os nossos dicionários não mencionam essa possível relação.
Só registram ENFEZADO como “aborrecido, irritado”.
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Maneira correta de empregar o pronome reflexivo ‘se’ - Pronomes - Significados - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa
Saiba a maneira correta de empregar o pronome reflexivo ‘se’
Quem lê esta coluna com certa frequência já sabe. Estou há mais de um mês tentando organizar a minha correspondência, por isso não estranhe o fato de eu fazer alusão a uma carta antiga ou escrever a respeito de alguma pergunta já respondida. É que o número de leitores novos, graças a Deus, é muito maior do que eu imaginava.
O assunto de hoje é bem interessante. Por meio de fax, mensagens eletrônicas ou cartas, vários leitores querem saber se o verbo “suicidar-se” é um pleonasmo ou não.
O argumento basicamente é o seguinte: o verbo “suicidar-se” vem do latim “sui” (”a si” = pronome reflexivo) + “cida” (=que mata). Isso significa que “suicidar” já é “matar a si mesmo”. Dispensaria, dessa forma, a repetição causada pelo uso do pronome reflexivo “se”.
Quanto à etimologia (=origem da palavra), os leitores têm razão.
Já que falamos em etimologia, é importante lembrar que as palavras terminadas pelo elemento latino “cida” apresentam essa triste ideia de “matar”: se o formicida mata formigas, se o inseticida mata insetos e se o homicida mata homens, o suicida só pode matar a si mesmo.
Não devemos, entretanto, fazer confusões. Existe uma pelo menos que, em vez de matar, salva muitas vidas: é a Nossa Senhora de Aparecida. A nossa padroeira, graças a Deus, tem outra origem.
Voltando ao verbo “suicidar-se”. Na verdade, os nossos leitores só têm razão quanto à origem da palavra. Se observarmos o uso contemporâneo do verbo “suicidar-se”, não restará dúvida: ninguém diz “ele suicida” ou “eles suicidaram”. O uso do pronome reflexivo “se” junto ao verbo está consagradíssimo. É um caminho sem volta. É um pleonasmo irreversível.
O verbo “suicidar-se” hoje é tão pronominal quanto os verbos “arrepender-se”, “esforçar-se”, “dignar-se”… Da mesma forma que “ela se esforça” e “eles se arrependeram”, “ela se suicida” e “eles se suicidaram”.
Diferente é o caso do verbo “autocontrolar-se”. O prefixo “auto” vem do grego e significa “a si mesmo”. Existe o substantivo “autocontrole” (=controle de si mesmo”), mas não há registro do verbo “autocontrolar-se”. Se você quer “controlar a si mesmo”, basta “controlar-se”.
É interessante, porém, saber que os nossos dicionários registram “autocriticar-se”, “autodefender-se”, “autodefinir-se”, “autodenominar-se”, “autodestruir-se”, “autodisciplinar-se”, “autoenganar-se”, “autogovernar-se”…
Resumindo: o uso correto do verbo é SUICIDAR-SE.
2) “Estamos a VOSSO ou SEU dispor”?
Os pronomes de tratamento (= senhor, Vossa Senhoria, Vossa Excelência…) fazem concordância na 3a pessoa. Portanto, o correto é “estamos a seu dispor”.
Não esqueça que Vossa Senhoria e Vossa Excelência são iguais a você (=3a pessoa), e não a vós (2a pessoa do plural).
Observe o exemplo:
“Vossa Senhoria deve comparecer à reunião do próximo dia 20. Ficamos a sua disposição para mais esclarecimentos.”
3) ALGUM ou NENHUM?
Deu na Aula Extra: “…não faça restrição alguma…”, “…palavra sem registro algum”.
Comentário de um leitor: “Meu velho professor de Português já ensinava nos anos 30 que é correto o uso de duas negativas em uma oração, assim: não vou não, não tenho dinheiro nenhum.
Não seria melhor, e até mais bonita, a forma sugerida pelo meu professor?”
Eu também não considero erro o uso de duas negativas. São inevitáveis frases do tipo “não fiz nada” e “não vi ninguém”.
Entretanto, se for possível, prefiro evitar a repetição de negativas. Em resumo:
1o) Não considero errada a frase “não tenho dinheiro nenhum”;
2o) Prefiro não repetir as negativas: “não tenho dinheiro algum”;
3o) Prefiro mesmo é “ter algum dinheiro”!!!
4) HAJA VISTA ou HAJA VISTO?
Deu na Aula Extra: “Foi demitido haja vista o problema surgido.”
Leitor protesta: “O senhor escreveu que não existe a forma haja visto. Mas haja visto não é o pretérito perfeito do subjuntivo, formado pelo subjuntivo do verbo haver (haja) e o particípio do verbo ver (visto)? O particípio corresponde a um adjetivo e flexiona-se. No exemplo acima o particípio deve concordar com a palavra problema, que é masculina. Então, acho que haja visto pode ser empregado corretamente na frase acima.”
Você tem razão quando diz que haja visto pode ser a forma composta do verbo ver: “Embora o comentarista haja visto (=tenha visto) o lance várias vezes, a dúvida permaneceu.”
Não devemos, entretanto, confundir os casos. Na frase analisada nesta coluna, a expressão “haja vista” significa “tendo em vista, devido a, por causa de”. Não é verbo. É uma expressão tão invariável quanto “tendo em vista”: “Foi demitido haja vista (ou tendo em vista) o problema surgido”.
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